Tenho o pé feio, mas ele fica bonito em dias friosMinha mãe mora longe
Sinto muitas saudades dela
Só que minha irmã também mora longe
E meus sobrinhos, e meu pai com meus outros irmãos
E meus tios, e meus primos
A Lu mora longe
O César mora longe
Alguns outros amigos também moram longe...
E eu aqui
Só...
Só tenho a minha avó
Até quem mora perto vive longe
Cada um com sua rotina, seu trabalho, sua própria vida
E eu aqui
Só...
Só observando, captando sentimentos, reações
Traduzindo gestos pro meu idioma particular
Tentando entender o mundo
O tão buscado sentido da vida
Claro que ainda não encontrei nada que me responda
Só descobri uma coisa
O sentido da vida é pra frente
Nunca para o lado
Ela não anda pra trás
Não dá uma pausa
Não tem sinaleiro
Apenas corre
O mundo não pára pra você descer
Gente entra e sai do mundo o tempo todo
Os que chegam pegam o bonde andando
Os que se vão saltam do carro em movimento
Tenho medo de saltar e quebrar um braço ou uma perna
Mas logo me lembro que não sei o que tem depois de saltar
Não sei se ainda serei eu com minhas memórias e os mesmos braços e pernas
Nessa hora já surgem outros medos
Medo de que a saudade me corroa quando saltarem do bonde
Levando consigo todos os resquícios de mim
Medo de não significar nada depois de partir
Gosto de unhas grandes, mas ando meio sem tempo pra cultiva-las
Sou maria risadinha
Se não sei o que dizer, sorrio
Se me sinto acanhada, sorrio
Se me contam uma piada idiota, sorrio
Se me dizem oi, sorrio
Mas tem gente que diz que sou séria
Principalmente sob o sol
Deve ser herança genética
Sou literalmente a cara do pai
Não sei cumprimentar as pessoas
Seria melhor se todo mundo que passasse me dissesse um oi
Amigos, colegas, desconhecidos
Não tenho talento pra cumprimentos
Nunca entendi isso em mim
E acho que não vou entender nunca
Se me vir na rua me cumprimente, vou amar!
Só não espere por mim
Talvez o monstro do cumprimento apareça e me deixe sem reação
Ai eu passo e me vou
Como se não tivesse passado
Adoro música
E se não tem pra ouvir eu canto
Cantar faz bem, me acalma
Calma, sou bastante
Há quem diga que sou a garota paciência
Tenho tanta que às vezes até confundem com lerdeza, sonsidão
O que não sabem é que estou sempre atenta, observando
A tia da limpeza na faculdade que tem um olhar triste
O tio da limpeza que traz sempre muita alegria com um sorriso no rosto
O motorista do ônibus quase sempre mau-humorado
O moço que trabalha no correio que passa sempre por mim quando vou pra aula
O atendente da biblioteca
O carinha do lavajato que sempre me cumprimenta
Observo e tiro minha conclusões
Deduzo suas vidas, seus nomes, seus temperamentos
Depois vou pra casa e esqueço os detalhes
Me distraio fácil
Me perco em meus pensamentos
Penso muito, penso sempre
Penso até em parar de pensar
Mas logo vem outro pensamento
Alguns são bons, alegres, bobos, comuns
Outros angustiantes
Esses são os que mais demoram a passar
Já me arrependi muito de coisas que não fiz
E pensar em arrependimento é o que mais angustia
TPM
Dias perfeitos pra se arrepender
Pra chorar
Me apaixonar e sofrer por quem nem se lembra que eu existo
Ainda bem que são poucos dias
Passam
Demoram, mas passam
Não sei dançar
Gosto, mas não sei
Por isso às vezes prefiro ficar sentada
Ponha um samba ou um ritmo latino que eu me remexo
Mesmo começando tímida, sem sair do lugar
Uma hora me solto
Tive uma bicicleta
Não tenho mais
Gostava de descer ladeiras
Sentir o vento
Tenho o sonho de voar
Com os braços abertos
O vento no rosto bagunçando os cabelos
Acho que isso traz paz
Paz de espírito
Tenho muitos sonhos
Tento prever o futuro
Imagino
Planejo
Desejo
Desejo construir uma família
Desejo nunca perder a memória
A vontade de viver
Desejo sempre ser
Significar...
(Samara Bitencourt)